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Wednesday, July 02, 2008

Finalmente, o regresso ao Tibet





Já passaram três meses e meio desde que o Tibet foi interdito a estrangeiros na sequência dos tumultos iniciados em Mar 14 em Lhasa.
Nesse dia, um grupo de monges revoltaram-se contra a política de discriminação e de subjugação do governo chinês,
e acabaram por ser severamente punidos.
Desde aí o Tibet ficou interdito a estrangeiros.
A partir de Abr 23 foi autorizada a visita a grupos de cidadãos chineses, e também aos de Hong Kong, Macau e Taiwan.

Em finais de Junho foram autorizadas as visitas de cidadãos estrangeiros. Tornamos a ter a oportunidade de apoiar o povo tibetano a enfrentar as suas dificuldades históricas.
Por isso vimos lembrar-lhe que estão disponíveis os nossos dois aliciantes programas de travessia do Tibet:

Na Rota de Lhasa
, 16 dias de viagem, breves marchas diárias, 15 noites de hotel - É um
fascinante programa de travessia do Tibet, de Lhasa para Kathmandu, passando pelos seus principais centros religiosos e históricos; próximas partidas: Ago 2 e 16, Set 13 e 20, Out 11.

Expedição no Monte Kailash
, 21 dias de viagem, 3 dias a pé e a acampar, breves marchas diárias, 16 noites em hotel - Este itinerário consiste na mesma travessia do anterior com um prolongamento para caminharmos a rota de peregrinação em torno do monte Kailash, o centro do universo budista, e tomarmos banho no lago Mansarovar com as
suas águas azul turquesa; próximas partidas: Ago 2 e 16, Set 13, Out 11.

Leia mais sobre estes programas.

Thursday, May 15, 2008

Everest Espectacular no Tibet

Programa: Na Rota de Lhasa, Nepal, Tibet
Fiz esta viagem em Outubro de 2007, e posso dizer que trouxe muito mais dela do que aquilo que poderei lá ter deixado.
Para começar, o grupo que foi connosco (eu e a minha mulher) revelou-se fantástico.
Ficámos amigos e, combinamos por vezes encontrarmo-nos para uns passeios, umas almoçaradas, para, enfim... rirmos e estarmos juntos mais u
ma vez. Isso, acreditem, é uma das mais valias que trouxemos.
Kathmandu é uma cidade absolutamente fantástica: primeiro estranha-se, depois entranha-se... as ruas de Thamel estreitas, cheias de pessoas e carros, todos a buzinar... um caos organizado...

Hei-de, de certeza lá voltar... A viagem decorreu sem problemas de maior, excepto na fronteira entre o Nepal e a China, onde, por termos chegado em cima da hora de fecho da mesma e porque a estrada de montanha que conduz a Nyalam só está aberta da 1h da manhã até às 4 horas da manhã, nos obrigou a permanecer mais um dia em Zhingmu (um pormenor a rever por vocês). Nem tudo foi mau... na noite da partida ao jantar, ainda tivemos tempo de celebrar o Natal Tibetano e dançar no restaurante onde estávamos.
O guia Tibetano e os dois motoristas que nos acompanharam eram simpatiquissimos e excelentes profissionais. Um bem haja para eles!
Chegámos a Rongbuk ao fim da tarde....Que espectacular é o Everest a essa hora!
A luz do por do sol a bater na face norte deveria ser considerado património da humanidade!
No dia seguinte de manhã cedo, lá fomos nós (os que passaram bem ou menos mal) subir ao campo base. Dois foram de carroça puxada por pequenos cavalos e tres(eu incluido) fomos a pé, mochila às costas por aí acima...Valeu o esforço.
Adorei Lhasa e sobretudo o Potala... magnifico... pena não ter nenhum monge... enfim...
O templo de J
okhang é outro dos locais obrigatórios a visitar assim como o mosteiro de Drepung.
De regresso a Kathm
andu e depois de um pequeno contratempo (o agente local queria-nos colocar fora de Thamel, mas unimo-nos e não deixámos) visitámos a convite dele (para se limpar) e com guia, Bakthapur, Pata, Patupashinath, Budannath...acreditem...vale mesmo a pena.
Esta viagem, pela tremenda simpatia das pessoas, pela beleza incomensurável da paisagem, é uma viagem ao fundo de nós mesmos:
Na imensidão do planalto
Tibetano, na confusão de Kathmandu, na extraordinária paisagem nepalesa, na imponência das montanhas como o Everest, Lotshe, Pumori, Makalu etc, vemos que nas coisas simples é que está a verdadeira beleza, e que por vezes, um sorriso é muito mais importante do que qualquer bem material.
Peço desculpa pelo tempo que vos tomei, e por só agora ter criado o meu testemunho, mas quis... como dizer... olhar com distância, e ao recordar, ver que valeu a pena ter viajado convosco.

Obrigado


César Campos
Beja, 15 de Maio de 2008

Thursday, December 19, 1996

Viagem ao Ladakh, India

O vôo de Nova Delhi para Leh sobrevoa os Himalaias indianos e oferece-nos durante todo o tempo um panorama espectacular de montanhas nevadas e de glaciares. Fiz a viagem com a testa pressionada contra a vigia encantado com as paisagens.
O Ladakh está situado no planalto tibetano, no extremo noroeste da India. É uma zona muito remota pois os acessos através das altas montanhas são difíceis e a estrada está interrompida pela neve durante pelo menos seis meses no ano.
Leh, circundada por grandes montanhas, é a antiga capital do reino do Ladakh, também conhecido por Pequeno Tibet.
A sua rua central é longa e muito cosmopolita, e o bazar é um importante ponto de encontro e de troca de géneros. Aí prolifera o pequeno comércio que me dá a conhecer um pouco do estilo de vida dos ladakhis: o que comem e vestem, as alfaias e utensílios que utilizam, as suas produções artesanais e a sua arte.
Sendo um País budista, achei estranho que possua uma mesquita e um bairro muçulmano no centro da cidade. Informam-me que a presença da mesquita se deve ao casamento do rei do Ladakh com uma princesa de Kashmir (muçulmana) no séc XVII.
O palácio real, ainda propriedade dos monarcas, domina a cidade do alto de uma colina. Acima dele situa-se o mosteiro Tsemo (séc XV), engalanado com coloridas bandeiras de oração.
Vale a pena a longa caminhada até aqui para se apreciar o panorama da cidade rodeada de verdejantes campos agrícolas.
Leh situa-se no longo vale cavado pelo impetuoso rio Indo. As aldeias da região contam poucas famílias pois a terra cultivável é escassa, sendo a pastorícia um meio de subsistência importante. Seguindo o modelo tibetano, a actividade religiosa foi preponderante na vida deste povo e aí encontramos inúmeros mosteiros, quase todos em actividade. Viajar no Ladakh implica obrigatoriamente visitá-los pois é neles que está depositada uma profunda cultura ancestral.
Assisti ao festival anual do mosteiro de Stagna cujo propósito era o de dar graças pelas colheitas. Quando, de manhã, nos aproximávamos do mosteiro já se ouviam as enormes trompas telescópicas que ressoavam grave e possantemente pelas montanhas.
À semelhança das nossas procissões, esta festa reúne todos os aldeões da área numa ocasião em que podem participar na sua religião e auferir mérito religioso. É também um importante acontecimento social para o qual as pessoas vestem as suas melhores roupas e onde convivem despreocupada e alegremente. As cerimónias que mais agradam ao povo são as danças com máscaras acompanhadas de música de instrumentos de sopro e tambores. Em certas ocasiões, as pessoas também participavam na dança e era notório que se divertiam bastante.
Na planície sob o mosteiro, realizaram-se provas de tiro com arco tradicional. A maioria dos desportistas não estavam muito treinados, mas o que contava era o são convívio e a boa disposição que reinava entre eles e a assistência.
Por ser uma manifestação genuína da tradição deste povo, e não uma atracção turística, considero que esta foi uma experiência de uma enorme riqueza cultural.
Fiquei entusiasmado por o meu guia, Wangchuk, me ter informado que iríamos a uma festa de aniversário de um parente, nessa noite na sua aldeia a leste de Leh, a véspera de iniciarmos o percurso pedestre pelas montanhas. No Ladakh os aniversários festejam-se uma vez na vida de uma pessoa, normalmente alguns meses após o nascimento.
Não podíamos comparecer sem levar as katas e fomos ao bazar de Leh comprá-las. Manda a etiqueta nos países de cultura tibetana que os visitantes apresentem katas aos seus anfitriões. É um costume ancestral na região e um sinal de cortesia e de profundo respeito. As katas oferecem-se igualmente a quem parte por um período prolongado. Também são oferecidas às estátuas das divindades nos mosteiros ou são presas às rochas e a ramos de arbustos em locais elevados nas montanhas. A kata tem as dimensões de um cachecol e é de cor branca. Infelizmente já é difícil encontrá-las em seda ou em linho fino e tivemos de contentar-nos com as de poliester.
O povoado de Basgo situa-se num longo vale encravado entre montanhas que a estrada atravessa numa das extremidades. O mosteiro, semi-arruinado mas ainda activo, domina a região do alto de um elevado promontório. Um pouco mais acima notam-se ainda algumas muralhas da antiga fortaleza. As casas estão dispersas pelos campos de cultivo que apresentam, nesta época, algumas áreas cobertas de gelo compacto. As filas de choupos e de salgueiros, uma visão típica destas altas paragens, assinalam o curso de valas de irrigação.
Cruzámos dois homens que conduziam um enorme yak. Explicaram que viajavam há cinco dias através das montanhas e que tencionavam vender o animal numa destas aldeias. "Não vão ter muita sorte", explicou-me o guia, "o yak emagreceu com a viagem e os aldeãos sabem que ele não sobrevive a esta altitude".
O Wangchuk apontou para a casa onde se realizava a festa, situada em local preponderante numa encosta da montanha. Notava-se que pertencia a gente abastada pois tinha uma grande dimensão e três pisos. Enquanto caminhávamos ao longo do ribeiro fomos observando os grupos de convivas, aperaltados para a ocasião, que convergiam de vários carreiros, alguns montados em cavalos adornados com arreios reluzentes. As mulheres mais ricas usavam o toucado característico do Ladakh, o perak, que desce pelas costas e é incrustado com fiadas de turquesas. Consoante a posição da sua detentora, ele pode ter três, cinco, sete ou nove fiadas, estando estas últimas reservadas à alta nobreza e à família real.
Como a maioria das casas no Ladakh, esta também tinha os característicos amuletos com crâneos de cabra pendurados nas paredes exteriores.
Senti que penetrava no íntimo de uma civilização centenária, até culturalmente mais antiga do que a nossa.
Após os cumprimentos aos senhores da casa fomos convidados para uma sala onde seria servida uma refeição ligeira aos recém-chegados. O mobiliário resumia-se a coloridos tapetes no chão rodeando a divisão e a mesas baixas e oblongas. Das paredes pendiam algumas fotografias de familiares, algumas bastante antigas, de lamas venerados e de divindades budistas. Mal nos sentámos, de pernas cruzadas sobre os tapetes, servem-nos chá em taças de porcelana. Nas regiões de cultura tibetana, o chá é fervido longamente em água para obter-se um preparado muito concentrado a que se dilui manteiga de yak e sal dentro de uns cilindros de madeira próprios para o efeito. O resultado, idêntico a um caldo, é bastante agradável. Seguiu-se o chang, cerveja fermentada a partir de cevada, e arroz com pedaços de cabrito servidos também em taças com um suculento molho.
Depois conduziram-nos para o recinto da festa ao ar livre sob grandes toldos. Após saudações, sentámo-nos de pernas cruzadas no solo coberto de tapetes tibetanos, detrás de mesas baixas. Os homens e as mulheres sentavam-se em mesas separadas.
Os criados serviram-nos sutcha (chá salgado com manteiga de yak) e chang (cerveja caseira de cevada), seguindo-se chapatti, carne com batatas, depois dhal-bat (puré de lentilhas com arroz). Senti-me um pouco embaraçado quando constatei que não era capaz de comer o arroz com a mão, e tive de pedir uma colher.
A banda de músicos tocava incessantemente e, mais tarde, os convivas iniciaram a dança. Homens e mulheres em conjunto faziam uma fila por entre as mesas e avançavam com passos lentos e curtos ao ritmo do tambor. Exibiam uma expressão de distante e, de kata (écharpe cerimonial) nas mãos, produziam movimentos suaves e elegantes de acordo com o compasso da música.
À uma hora da manhã o frio já era intenso e passou-se ao salão onde a ceia nos foi servida. A música e a dança não esmoreciam, o chang continuava a correr com abundância e as crianças dormiam no colo das mães.
O anfitrião, dos poucos que falava algum inglês, contou-me que tinha terras e que era lavrador. O seu pai tinha sido um grande mercador e lembrava-se de como ele partia com a sua caravana de yaks e de cavalos para o Changtang.
Nessa época os chineses ainda não ocupavam o Tibet e o comércio era livre. O pai ia sempre armado e combinava viajar com outros mercadores para fazerem frente aos salteadores que na época infestavam os caminhos.
A festa durou toda a noite. De manhã, todos nos dirigimos para a casa de uns familiares, do outro lado do vale, para tomarmos o pequeno almoço. Serviram-nos kolak (tsampa misturada com sutcha), chá e mais chang. No final, insistiram comigo e com o Wangchuk para que os seguíssemos para a casa de outro aldeão pois... a festa prosseguia !
Declinámos com cortesia pois a nossa caminhada através das montanhas tinha mesmo de começar.
Mais tarde, deixaria este País com a memória empolgada de vivências únicas e com a nostalgia de não poder prolongar a minha estadia entre este povo que vive com alegria enfrentando as mais rudes intempéries. Despedi-me do Wangchuk no aeroporto. Pouco antes de partir envolvi-lhe o pescoço com uma kata e ele manifestou uma enorme surpresa que se traduziu em vergonha por não ter sido ele a lembrar-se.


Gonçalo Velez
Nov 96