Thursday, April 22, 1999

Cuidados de Alimentação em Viagem

A conservação de uma boa saúde em viagem é essencial. Quando viajamos em países menos desenvolvidos que o nosso (do ponto de vista da higiene) é vital dedicarmos uma enorme atenção à evolução do nosso estado físico pois qualquer descuido pode trazer-nos graves dissabores.
Em paralelo, é igualmente essencial não deixarmos enfraquecer o organismo por ingestão deficiente de nutrientes e de líquidos, tanto em quantidade como em qualidade. Um organismo depauperado torna-se propenso à doença.
Tenha sempre presente de que melhor do que qualquer vacina é a atitude de vigilância constante ao que comemos e bebemos.

Escusado será dizer que partir de boa saúde é a primeira prioridade.

Hidratação: Na montanha ou no deserto, o ar é mais seco, o que, associado ao esforço físico diário gera uma maior perda de vapor de água pela respiração. Podemos não notá-lo mas respiramos mais rápida e profundamente. Por via desse esforço também transpiramos mais.
Mas não só: a nossa exposição prolongada ao sol e ao vento também contribui para esse efeito.
Por isso recomendamos-lhe que beba regularmente durante o esforço, mesmo que não tenha sede. Três ou quatro golos em cada quarenta minutos são suficientes. Use um cantil ou uma garrafa de água com uma capacidade de 1.5 litros.
A hidratação no final do esforço é a mais importante, pois durante o dia não conseguirá beber tanto quanto necessário. Prefira água morna ou quente (chá, sopa), pois o organismo absorve-a melhor, e concentre-se em conseguir absorver o mais possível. Tente conseguir duas urinas abundantes entre o final da etapa e o deitar. Uma urina transparente significa que o organismo está bem hidratado. Mantendo sempre uma boa hidratação do organismo possibilita uma recuperação mais rápida da fadiga muscular durante a noite. Caso ache necessário, durma com o cantil à cabeceira e beba de cada vez que despertar.
Há quem decida beber pouco ao serão para evitar passar pelo desconforto (e às vezes pelo frio) de ter de levantar-se durante a noite. Isso é muito errado, e você tem de assumir que esse é um custo necessário para manter-se na melhor forma possível.
O pequeno almoço é outra ocasião que deverá aproveitar para beber bastante.
Por precaução, trate toda a água que não for fervida ou engarrafada. Leve pastilhas de purificação de água, um filtro apropriado ou um frasco conta-gotas com lixívia ou tintura de iodo para desinfectar toda a água que não foi não tratada. Desconfie do gelo que lhe servem nas bebidas por que pode provir de água da torneira!
Nos climas quentes e húmidos em que a sudação pode ser abundante convém abusar um pouco do sal de cozinha.
Alimentação: Numa viagem com predominância de esforço físico é vital repor as calorias gastas em cada etapa. Note que não é necessário comer muito, desde que se coma o que é correcto. É generalizada a ideia de que a carne é que dá força.
Nos programas que organizamos, em que o tipo de esforço é de intensidade moderada mas de relativa longa duração, essa ideia é muito errada. As suas refeições devem ser sempre muito ricas em hidratos de carbono (arroz, massas, batata, cereais, feijão, biscoitos, etc) para repor as reservas de energia que gastou durante o dia. O seu suprimento far-se-à sobretudo ao jantar pois a refeição de meio do dia deve ser frugal, tipo pic nic, para que não prossiga a etapa com uma digestão pesada.
É curioso de notar como as diversas regiões possuem os seus alimentos de esforço característicos: o arroz e a massa na Ásia, a batata e o feijão na Europa (originários do Brasil), o cous cous e a lentilha no Magrebe, a mandioca no resto de África, a quinoa e o milho nos Andes, etc, não mencionando os diversos tipos de cereal que se generalizaram nos vários continentes, cada um adaptado às condições climáticas locais.
Não coma alimentos crus excepto se conhecer a sua proveniência ou no caso de fruta envolta em casca (lave-a muito bem antes de descascá-la).
A gastronomia é um aspecto cultural muito importante em cada viagem e recomendamos que procure conhecer o mais possível das suas variadas facetas. Os locais privilegiados para ter essa experiência, e seguramente os mais genuínos, são onde come o povo nativo. Procure estabelecimentos simples e movimentados, e misture-se com os locais. Nos países que gozam de bom clima pode-se comer uma refeição na rua, servida a partir de bancas. É uma experiência muito interessante, não sem envolver algum risco para a saúde, mas que consideramos imprescindível.

Saturday, December 05, 1998

O Rio do Perfume, Vietnam


O Rio do Perfume situa-se no centro do País e atravessa Hué, a última cidade imperial do Vietnam. O seu nome deve-se provavelmente ao aroma das resinas e das ramagens de pinheiros e de coníferas que seria arrastado pela brisa ao longo do vale.
Na margem norte, a cidadela estende-se por trezentos hectares onde se contavam mais de duzentos edifícios entre palácios, templos, pavilhões de lazer e de cultura e edifícios administrativos e militares.
No centro deste recinto situavam-se os domínios privados do imperador: a Cidade Proibida Púrpura. O significado dos nomes das suas edificações são muito atraentes e cito alguns: o Palácio da Suprema Harmonia, o Terraço das Cinco Fénix, o Portão do Meio Dia, a Esplanada dos Rasgados Cumprimentos, o Pavilhão da Eterna Claridade, etc. Os dragões, os leões e as fénix abundam nos elementos decorativos.
Infelizmente, muito foi destruído pelas guerras e pela negligência do regime comunista durante esta metade do séc XX mas, após a sua classificação como Património Mundial pela Unesco em 1993, os trabalhos de reconstrução e de restauro parecem-me realizar-se com empenho e competência.
A cidade, muito encantadora, é atravessada por vários canais e braços de rio. O movimento de embarcações de transporte e de pesca é considerável. Muitas famílias ainda habitam nos seus barcos acostados uns aos outros no refúgio tranquilo dos canais.
Nas colinas de densa e viçosa vegetação a sul de Hué estão dispersos os mausoléus dos vários imperadores da dinastia Nguyen (1802-1945). É curioso notar que cada imperador planeou o seu com antecedência!
São complexos arquitectónicos, artísticos e paisagísticos muito interessantes pois procuram conjugar a harmonia da Natureza com o desenho e a disposição das edificações de acordo com critérios geomânticos ancestrais. Situam-se em parques verdejantes atravessados por canais e possuem lagos com lótus. Todos têm terreiros de cerimónias onde desfilam elefantes, cavalos, soldados e mandarins civis e militares esculpidos em pedra. Junto ao túmulo eleva-se um pavilhão contendo uma grande estela em mármore, apoiada sobre uma tartaruga, onde está gravada a biografia do imperador. Em redor dispõem-se templos, pequenos palácios, pavilhões de recreio e habitações de concubinas, criados e soldados.
O imperador Tu Duc construiu um complexo tão agradável que, quando foi terminado, resolveu aí habitar acompanhado das suas cento e quatro esposas e muitas concubinas, conduzindo daqui os negócios do País.
Gostei de visitar todos estes locais de bicicleta, aliás o modo de transporte do povo. É uma forma interessante de contactar com os nativos pois permite parar a todo o momento e fazer todos os desvios de percurso que entendemos.
Há outros mausoléus mais simples, carecendo de conservação e por isso raramente visitados, que não têm guardas. Estão muito decadentes e normalmente desertos.

Visitei o mausoléu de Tieu Thri e agradou-me ser o único visitante. Não encontrei vivalma no recinto excepto alguns nativos que passaram de bicicleta ou crianças que jogaram à bola no terreiro e se banharam no lago. O ambiente aqui é de grande tranquilidade e convida à meditação. Ficamos absorvidos pelo encanto de um imaginário de fausto e de requinte que ali ocorreram há muito tempo e cujos vestígios estão reflectidos na arquitectura e na arte.
Não se vêem muitos viajantes ocidentais no Vietnam e isso confere um sentimento de exclusividade muito especial à viagem. Os nativos olham-nos com surpresa e o seu interesse por nós ainda é só didáctico.
Se Hué é um esplêndido exemplo da arte e da cultura aristocrática vietnamita, o arquipélago de Halong é uma surpreendente obra da Natureza. São três mil ilhéus desertos, rochosos, cobertos de vegetação verdejante que formam um autêntico labirinto no meio das águas verde esmeralda do golfo de Tonkin. Atravessei de barco uma parte do arquipélago e fiquei assombrado com a extrema beleza da paisagem.
Há elegantes promontórios que se elevam dezenas de metros acima da superfície das águas, alguns com uma base muito estreita devido à constante erosão provocada pelo mar. O tempo e os elementos criaram múltiplas formas interessantes nos rochedos. Há inúmeras cavernas escavadas pelo mar que possuem várias entradas e onde vemos, na penumbra do seu interior, esplêndidas águas verde claras.
À medida que vamos navegando nestes canais vamos descobrindo uma enorme multiplicidade de pequenas enseadas com minúsculas praias desertas rodeadas de falésias a pique ou de vegetação verdejante que desliza suavemente sobre o areal. O sentimento de navegar entre estes rochedos é extasiante pois em cada minuto descobrimos novas paisagens de sonho. Fazem-nos lembrar velhas histórias de piratas, de esconderijos, de cavernas e de locais escondidos pela vegetação onde se guardam tesouros perdidos.
O arquipélago de Halong possui um ambiente verdadeiramente sublime para quem gosta de mar e de actividades aquáticas.
Cruzamos vários pequenos botes de pesca artesanal, normalmente tripulados por um casal onde se encontram também um ou dois filhos pequenos. Há também extensos viveiros de marisco junto aos quais os pescadores habitam em casas sobre palafitas.
A ilha principal, Cat Ba, é a maior e a única que possui uma povoação que é habitada, maioritariamente por pescadores. A sua baía é refúgio para centenas de barcos de pesca que a tornam bastante animada e pitoresca durante o dia, e muito cintilante à noite.
A maioria da superfície da ilha está protegida pelo Parque Nacional de Cat Ba. Aqui habita uma espécie muito rara de macaco asiático no meio da diversidade de cerca de setecentas espécies vegetais, das quais mais de
cem têm aplicação medicinal. Fiz um passeio a pé até ao cimo do monte mais alto donde pude apreciar um bonito panorama em redor por entre a leve névoa matinal. Admirei uma sucessão de ilhéus rochosos por entre os outros montes e constatei que praticamente toda a ilha está coberta por uma densa floresta semi-tropical.
Depois visitei as montanhas do noroeste do País, junto à fronteira com o Laos, para percorrer um itinerário a pé através das aldeias. A região é agradavelmente verdejante com florestas onde sobressaem enormes bambus e árvores muito viçosas de longas raízes superficiais.
Os aldeãos cultivam arroz, mandioca e chá em socalcos nos flancos das montanhas, utilizando engenhosos métodos de irrigação onde destaco as noras feitas de bambu. Também criam cavalos, búfalos, vacas e enormes porcos.
As suas casas são construídas de madeira sobre estacas e têm só um piso, sendo cobertas de colmo. É nelas que dormimos durante o percurso pedestre e onde teremos a interessante experiência de provar a gastronomia tradicional campesina.
Regressei com muito boas memórias do País, especialmente da simpatia e da hospitalidade deste povo cordial e sorridente, cada vez mais desejoso de comunicar com o exterior.

Gonçalo Velez
Nov 98

PS: Visite o site Rotas do Vento onde encontrará um programa com o itinerário que aqui descrevo.

Tuesday, March 31, 1998

As Botas para Caminhar

A escolha de umas botas nunca é uma tarefa fácil. Abstraindo de aspectos estéticos, deparamo-nos com a dificuldade de avaliar diversos tipos de materiais, de construção, de solas e de desenho. Os preços também variam muito, o que deixa o leigo bastante confuso.
As modernas botas para marcha, como tal, existem há menos de duas décadas. Até aí era usada uma versão ligeira das botas de alpinismo, em couro e com sola de borracha sulcada. Mas hoje, por um fenómeno de moda, fabrica-se uma enorme diversidade de modelos, muitos dos quais não têm aptidão para resistir a um tratamento árduo na montanha.
Assim, os atributos a procurar numas botas novas para uma utilização todo-o-terreno resumem-se a:
a) Conforto. A sua forma interior deve estar bem adaptada ao pé. Há marcas que fabricam modelos diferentes seja para pés estreitos ou para pés largos. O tamanho da bota deve ser um ou meio número superior ao normal pois deve considerar que após umas horas de marcha o pé incha. É suficiente usá-las com um par de meias espessas. Todos temos um pé maior que o outro, por isso concentre-se no seu pé grande quando estiver a ensaiá-las. Quando apertar os atacadores, os calcanhares devem manter-se imóveis atrás — se chutar com força contra uma parede, não deve sentir os dedos a embaterem no extremo da bota. Quanto maior for o número de presilhas (crochets) para os atacadores, melhor você conseguirá ajustar a bota ao seu pé. As botas tradicionais têm, em média, cinco de cada lado na zona do pé (incluindo um par estrangulador), mais três pares a subirem o tornozelo. Não aperte demasiado os atacadores pois pode diminuir a circulação nos pés — se sentir os pés gelados no Inverno experimente afrouxar os atacadores.
De igual forma, os movimentos transversais do pé devem ser mínimos. Todo o atrito repetido ao longo de várias horas poderá provocar bolhas, sobretudo se ainda não estiverem formados calos nessas zonas do pé.
Uma maior espessura da sola de borracha oferece um melhor isolamento do frio que é transmitido pelo solo, além de oferecer um melhor amortecimento ao choque.
O couro ainda é o material nobre por excelência, e as boas botas são construídas sem costuras laterais, à excepção do acabamento no calcanhar e no contacto com a sola.
Há modelos cujo interior é revestido de uma película impermeável, o que encarece sobremaneira as botas. Em nossa opinião, essa película é dispensável. Se chover ou se a erva estiver encharcada, as calças acabarão por escorrer.
b) Protecção. A bota deve subir acima do tornozelo para o proteger de entorses. As botas de couro com 2-3mm de espessura oferecem uma boa rigidez geral, não só ao nível do tornozelo como para todo o pé, com destaque para os dedos. Hoje é mais vulgar encontrarem-se materiais sintéticos e sucedâneos, mais baratos do que o couro. Esse tipo de rigidez é um factor importante. Não é raro necessitarmos de dar largos saltos ou de descermos declives íngremes com consequências que muitas vezes não controlamos bem. Uma espessura equivalente também oferece um bom isolamento do frio.
c) Segurança. No decurso de uma escalada nos anos trinta, o alpinista italiano Vitale Bramani assistiu à queda e consequente morte de um amigo quando atravessavam, desencordados, uma zona de rocha fácil, mas molhada e escorregadia. Muito perturbado, Vitale jurou que algo tinha de fazer para se evitarem acidentes desnecessários deste tipo. Pouco depois inventou uma sola de borracha que ainda hoje é a referência mundial e que equipa todas as botas de alpinismo e a maioria das botas de marcha: a sola Vibram. Para testar e comparar o grau de aderência de solas diferentes, faça pressão com a sua unha a 45º sobre a superfície da borracha lisa.
Alem de boa aderência, uma sola deve possuir um certo grau de rigidez, sobretudo transversal, para que, em descidas íngremes, possa travar com as arestas em técnica idêntica à do ski na neve. Uma rigidez adequada também lhe oferece maior conforto por não sujeitar o pé a todas as irregularidades do solo.
d) Resistência e durabilidade. Estes são factores difíceis de avaliar, mesmo para um especialista. O conhecimento das marcas é muito relevante, sobretudo as suas experiência e tradição a fabricar botas de alpinismo, um domínio muito mais exigente. Os materiais empregues contam muito: compare diferentes modelos e privilegie a resistência e a rigidez. Tenha em mente de que as suas botas poderão ter de sofrer um tratamento implacável.
Quanto maior for o número de costuras, menos impermeável a bota será e mais pontos fracos haverá. Um facto muito irritante é saltar uma presilha, o que é irreversível.
As botas tradicionais em couro representaram sempre um bom investimento por que possuem as melhores características do que se referiu acima, alem de durarem dezenas de anos. Por isso, foi sempre vulgar a troca das solas quando estas se gastam. Actualmente, muitos dos fabricantes aplica às botas de marcha um tipo de solas que não é substituível. Conhecemos pessoas que ao fim de um ano de actividade gastaram as suas solas, embora o restante material se conservasse como novo!
Conclusão. Quando decidir comprar umas botas visite varias lojas da especialidade e compare múltiplos modelos. Faça todo o tipo de perguntas aos vendedores e exija respostas concretas. Se não souberem responder-lhe de forma credível vá comprar a outro sítio. Depois participe em várias caminhadas, observe os modelos que as outras pessoas usam e faça-lhes perguntas. Avalie a frequência com que pensa utilizar as botas. Disso dependerá também a grandeza do seu investimento.
Depois disto, já terá uma opinião formada.
Após comprar umas botas tenha em mente que elas necessitam de se moldar ao pé.. É possível que nas primeiras duas ou três saídas elas lhe causem bolhas. Por isso, não esqueça que antes de partir para uma viagem deve testá-las. Dado que o atrito se dá normalmente no calcanhar, poderá colar um adesivo largo ao longo dessa zona (e/ou noutras) durante o período de adaptação. Caso lhe apareça uma bolha, nunca arranque a pele. Faça-lhe um pequeno corte para extrair o liquido e manter a bolha vazia. A pele da bolha secará protegendo ao mesmo tempo a pele nova que lhe dará lugar.
Outro contratempo que lhe poderá surgir no decurso de uma viagem é encharcar o interior das botas após uma chuva. A solução é usá-las com um a dois pares de meias de lã (de polipropileno será melhor) e esticá-las o mais possível fora da bota para que a evaporação por capilaridade se dê. Se tiver meias de reserva vá trocando as húmidas pelas secas.
Talvez você esteja a estranhar não termos mencionado um aspecto muito importante que nenhum montanheiro descuraria: o peso. As botas ideais, de acordo com o mencionado acima, não podem ser as mais leves. Pelo que lhe expusemos, é preferível aceitar um maior peso nos pés para termos a garantia de que o conforto, a segurança na marcha, a protecção dos tornozelos e tudo o mais que mencionámos, serão maiores. Por isso deixámos este aspecto para o fim e o referimos como meramente secundário.

Thursday, December 04, 1997

Sobrevivência na Selva, Malásia

Atravessámos bem cedo a aldeia de Uluche cruzando alguns agricultores que se dirigiam para os seus campos. Tinha-nos sido entregue um conjunto de rações que deveríamos gerir da melhor forma ao longo dos próximos dias e que seriam complementadas com os alimentos que iríamos colher. Além daquelas recebemos também um tacho individual, fósforos e lixa, uma vela, um troço de combustível sólido e uma parang, a formidável catana malaia. O grupo era composto por dois guias e cinco aprendizes malaios, dos quais uma senhora, mais o português. Pouco após iniciarmos a subida da colina parámos numa verdejante mata de bambus. Aqui tivemos a nossa primeira lição e a estreia da parang: a preparação do cantil a partir de um tronco grosso de bambu. Passando o ribeiro a subida torna-se mais íngreme e vamos abandonando a floresta habitada. Os guias aproveitam para fazer algumas paragens durante as quais nos mostram as espécies de plantas que são comestíveis: folhas tenras e caules que se descascam.. Pensei que se encontrariam imensos frutos gostosos mas o Mohamed, o guia-chefe, diz que mesmo que os houvesse os animais os colheriam primeiro. Também conhecemos folhas que mascadas saram feridas, e um tipo de vinha cujo tronco é poroso e do qual escorre água quando cortado. Aprendemos a retirar longas fibras da casca de uma certa árvore que se usam como cordas.
Halim, o segundo guia, é natural de Uluche e a sua profissão era caçador. O Governo aboliu recentemente a caça por motivos de preservação das espécies e está a subsidiá-lo. Agora ele dedica-se a colaborar nestes cursos de sobrevivência.
A meio do dia parámos à beira de um ribeiro pois iríamos cozinhar o almoço, e também o jantar por que o local de acampamento nessa noite não terá água. Surpresa ! Fazer fogo na selva não é como em nossa casa onde abundam os papéis de jornal, o combustível sólido e a lenha seca. Acabei a cozinhar a massa na fogueira do meu vizinho Cunnin, enquanto este comia. À falta de talheres comíamos com pauzinhos ao estilo chinês feitos por nós. Depois ainda cozemos arroz que aprendemos a embalar em grandes folhas para levarmos para o jantar.
Chegámos a meio da tarde ao campo Bravo 1, na floresta secundária. Uma lona no chão e outra suspensa das árvores formam um abrigo que se destina a proteger-nos da chuva. Halim mostra-nos como se constrói um grande abrigo com ramos atados com as fibras de casca de árvore. Todos cortam folhas da árvore Bertham para o cobrir. Uma camada espessa de folhas, suficiente para não se ver através dela, contêm uma chuva torrencial. Também aprendemos a colher as resinas da árvore maranti que são eficazes a atear o fogo.
Após o anoitecer, jantamos todos em torno de uma grande fogueira envolvidos pelos incríveis sons da selva.
É à noite que os medos dos citadinos emergem. Mohamed diz-me que as pessoas que penetram pela primeira vez na selva tropical pensam sempre no pior que lhes pode acontecer. Trazem visões de enormes cobras e escorpiões, de temíveis tigres e ursos prontos a atacar.
O seu lema é the jungle is neutral (a selva é neutra) pois considera que nenhum animal ataca se não se sentir ameaçado ou às suas crias. Por isso é importante compreender o meio e ter um mínimo de sensibilidade e de atenção para se conseguir aí viver sem grandes sobressaltos.
De manhã, tivemos várias sessões práticas sendo a primeira a extracção da polpa comestível da árvore Bertham. É uma tarefa laboriosa por que implica descascar com a parang o tronco junto da raíz, muitas vezes com fracos resultados. O sabor desta polpa é muito indiferente mas o Al descobriu que polvilhando-a com sal o melhorava muito.
A seguir aprendemos como se sinaliza a nossa passagem na selva. Talvez esta seja a matéria mais importante do curso por que não só permite orientar-nos para regressarmos pelo mesmo caminho, como também fornece uma pista a qualquer equipa de salvamento. Também nos ensinaram a bater na raiz de uma grande árvore para fazermos propagar o som a quilómetros de distância. Halim afastou-se para sinalizar um percurso através da selva que pouco após iríamos seguir. Foi um exercício muito divertido e interessante. Demonstrou que os nossos olhos necessitavam ainda de bastante treino para detectar os vestígios que ele deixara.
À tarde iniciámos a descida para a selva primária, mais conhecida pelo termo rainforest. À medida que descíamos a vegetação tornava-se cada vez mais densa e verdejante. A variedade de plantas é assombrosa. O arvoredo compõe-se de vários níveis de copas, havendo árvores que ultrapassam os sessenta metros de altura e lançam longas e espectaculares raízes à superfície da terra. O ambiente é de penumbra por que a luz do sol não penetra através das folhagens (por isso tive imensa dificuldade em fotografar sem flash!). É encantador observar um ambiente tão viçoso onde as plantas crescem de todo o lado, e se entrelaçam umas nas outras reduzindo o campo de visão a uns seis metros de distância.
Chegámos ao campo Kilo 1 a meio da tarde. O local é muito agradável por que se situa numa clareira junto de um ribeiro de águas transparentes. Depois de montado o acampamento fomos à procura de bambus por que iríamos aprender a cozinhar nele e a fabricar outros utensílios, como pratos e talheres de servir. O bambu é muito plástico e tem enormes resistência e flexibilidade. As suas aplicações neste contexto são quase infinitas e incluem mobiliário de campo, armadilhas e alarmes, plataformas, até grandes cabanas de utilização permanente.
O Mohamed contou-me que avisa as pessoas para terem o cuidado de não se afastarem demasiado do acampamento por que podem perder-se. Por isso os guias têm sono leve e procuram estar sempre atentos ao que se passa em redor. Ele conta que uma noite estava vigilante e reparou que uma cliente americana se afastava do abrigo para se aliviar. Passado um pouco nota que a luz da sua lanterna se vai afastando. Levanta-se e segue-a, surpreendido por ela não perceber que o acampamento estava para trás (embora às escuras). Ao aproximar-se percebe que ela já se considerava perdida e ouve-a repetir com a voz trémula de angústia: "Oh my God, oh my God…!!"
Iniciámos o dia seguinte com um esplêndido banho numa das piscinas do rio onde jorrava uma cascata. Os raios do sol envolviam-nos e descontraímos sentados na areia com os peixes a debicarem-nos os pés. Nessa manhã fomos caminhar em grupo na selva. Cada um de nós conduziria o grupo à vez, sendo que o segundo auxiliava o primeiro a ultrapassar obstáculos e o terceiro marcava o caminho. Os guias deixaram-nos orientar como quisemos e seguimos um percurso que nos pareceu circular. Vimos marcas de javalis e estivemos a observar os gibões a rodopiar nos ramos superiores das grandes árvores. Foi um exercício muito interessante por que quando se decidiu regressar ao acampamento as opiniões divergiram muito. Havia pessoas muito seguras relativamente à direcção a tomar e que estavam totalmente equivocadas.
Mohamed instruíu-nos dos riscos que poderíamos encontrar, nomeadamente as víboras que gostam de enroscar-se sob a copa das árvores pallas. Por isso caminhávamos com a parang numa mão e um bastão na outra para afastar as ramagens. Ele diz-me que há só dois animais que teme seriamente: o vespão e a cobra real. Felizmente que nos seus mais de quinze anos na selva nunca teve de enfrentar algum deles. Eu já tinha lido que, quando surpreendida, uma cobra venenosa que ataca injecta normalmente muito pouco veneno, às vezes mesmo nenhum. Apesar de a selva proteger do sol, o Mohamed andava sempre de chapéu. "É para o dia em que me aparecer uma cobra real pela frente. Se ela se atirar a mim arremesso-lhe o chapéu à cabeça e fujo a sete pés…"
Pergunto-lhe se algum de nós for mordido, o que fazem? "Temos os nossos métodos que aprendemos com os nativos. O Halim e eu já fomos mordidos pela cobra negra e pela víbora da Sumatra. O antídoto é de venda restrita e não é prático de transportar por que tem de estar a uma temperatura baixa. Lembra-te que a sobrevivência significa fazer o que tens de fazer, não importa onde estiveres, com o que tiveres à mão. Não te preocupes que os nossos métodos não falham. Já assisti muitos nativos e companheiros com sucesso", informa-me com naturalidade.
Pela forma como me falava, ele era não só um apaixonado pela selva como também um estudioso empírico. Falou-me de experimentar quase de tudo no seu corpo para conhecer as consequências, e de sofrer febres terríveis. Ele foi comando especialista da selva durante muitos anos e viveu largos períodos neste meio. Durante o curso ele experimentou o efeito de umas folhas na pele do braço e concluíu que eram venenosas por que a pele tornou-se vermelha e com uma ligeira erupção, além de que lhe fazia comichão. Esse efeito passou em poucos dias.
Para reconhecer se uma planta é comestível ele ensinou-nos a esfregá-la a) no braço e esperar cinco minutos para ver o efeito, depois b) na pele fina e clara sob o braço e esperar cinco minutos, c) o mesmo método nos lábios, d) depois mastigar e deitar for a, e só no final deste processo se engole.
Senti-me algo desiludido no que respeita à fauna. Imaginei que iria observar aves multi-colores, mamíferos ágeis e répteis fugidios numa selva muito viva e movimentada. O que encontrei afinal foi uma Natureza serena mas muito sonora. Ouvia-se mas não se via, por tudo parecia acontecer nas copas superiores. Quanto aos seres terrestres, são sobretudo activos à noite e de dia afastam-se ao mínimo ruído suspeito. Aliás, a sinfonia era muito mais espectacular à noite, com uma variedade de sons absolutamente inimagináveis (levei um micro-gravador mas infelizmente a fita enrolou-se!).
O grande problema nas selvas malaias são as pessoas que decidem ir passear e que se perdem o que, sem preparação, é muito fácil. É sempre difícil organizar um resgate por que as áreas são vastas e só os muito experientes, com sorte à mistura, conseguem detectar os vestígios dessas pessoas. Acresce que as vítimas enlouquecem passados poucos dias. O pânico invade-as por acharem que estão à mercê dos animais, por que o seu raio de visão é muito curto e não conseguem ter referências geográficas, e por que normalmente já andaram interminavelmente em círculos. Quando as equipas de resgate os encontram, eles fogem em pânico e oferecem enorme resistência física.
Os cerca de sete dias que passei na selva ensinaram-me imensas coisas, entre as quais o facto muito real de que comemos em demasia no nosso quotidiano. Conseguimos viver comendo parcamente e sem sentirmos qualquer desconforto. O sentimento de termos poucos alimentos fez-nos encarar os que possuíamos de forma diferente. Vi uma série de atitudes da parte dos meus companheiros e minhas que pareceriam muito bizarras em Lisboa. Apanhei, por exemplo, o Ben que após esvaziar uma lata de sardinhas e de lhe ter bebido o suco, molhava a ponta do indicador no que restava e o chupava! Às vezes dava por mim a tentar decidir se comia agora ou mais tarde uma barra de chocolate recheado com coco. Também nunca me tinha visto a comer a totalidade de uma maçã (exceptuando os caroços)! Para além dos aspectos aliciantes ligados à observação da Natureza, este curso deu-me uma visão muito interessante da nossa existência num Mundo dominado pela sociedade de consumo ou sociedade da abundância. Foi muito salutar termos experimentado uma atitude perante a vida radicalmente diferente do que estávamos habituados. No fundo, viajar implica isto mesmo: distanciar-nos dos nossos hábitos para vermos melhor ao longe, e termos a humildade de aceitar experimentar outros modos de vida que possam ensinar-nos algo de diferente. É isto que ambiciono para uma experiência de viagem.
PS: Não quero deixar de mencionar Malaca que conserva importantes vestígios da nossa presença nomeadamente a porta de Santiago da fortaleza A Famosa e o bairro dos cerca de quinhentos descendentes dos nossos colonos que ainda falam português.

Monday, April 14, 1997

O Saco Cama

O saco cama é uma das peças de bagagem mais importantes para realizar a maioria das nossas viagens. Dele depende uma boa parte do conforto que você irá sentir no seu decurso. A sua escolha é, por isso, de grande importância.Se necessita de comprar um, pense primeiro como e aonde pretende utilizá-lo nos próximos dez anos. É um erro basear a sua decisão somente em função da próxima viagem que irá realizar. Se tiver dúvidas, vise um saco com uma referência de -15º que lhe permitirá uma utilização bastante diversificada. O nível de protecção do frio de um saco cama é função, sobretudo, do tipo de enchimento e do volume de ar quente que ele conservará em torno do nosso corpo. Por isso, um saco cama volumoso oferece um melhor isolamento do frio do que outro que seja fino.A sua decisão de compra irá pesar sobretudo no tipo de enchimento, por que os seus preços apresentam grandes diferenças.Neste âmbito, há duas famílias muito distintas: o enchimento natural (penugem) e o sintético.
a) Sacos com enchimento de penugem: É o material mais nobre e o de preço mais elevado. A penugem pode ser de pato ou de ganso (melhor). Ela é misturada com plumas e a qualidade do enchimento é tanto maior quanto menor for a percentagem de plumas. Comparada com o material sintético, a penugem é mais confortável por que permite suportar maiores amplitudes térmicas, é mais comprimível e ocupa menos espaço na mochila, e é bastante mais leve. Os sacos cama enchidos com penugem duram duas a três vezes mais que os sintéticos, e necessitam de maior atenção na sua manutenção. É sobretudo na lavagem e na secagem que se deve ter a máxima atenção.Nunca lave com detergente! Nem a seco. Fazendo-o irá eliminar a gordura natural que a penugem possui e que é a base da sua capacidade de insuflar. Há produtos específicos para lavar este tipo de sacos que se obtêm nas lojas especializadas. A secagem é outro quebra-cabeças. Os especialistas recomendam que seque num secador de tambor e que lhe introduza, além do saco, um sapato. Dado que a penugem molhada se agrega num só bloco, o sapato tem como função bater na penugem para que ela se vá soltando.
b) Sacos com enchimento sintético: Têm a vantagem do preço mais reduzido relativamente à penugem. Em contrapartida são mais pesados e mais volumosos para um mesmo índice de isolamento. Se bem que estes aspectos sejam superáveis, a sua utilização em diferentes temperaturas ambiente já poderá ser um inconveniente. Se você possuir um com referência -15º poderá sentir-se desconfortável com uma temperatura exterior de 15º ou de 10º. Enquanto que com um saco de enchimento natural você sentirá um calor seco, num deste tipo esse calor já será mais húmido, isto é, você sua. Ou então terá de dormir com o saco semi-aberto, o que não é uma boa opção pois dificilmente conseguirá ajustar a temperatura no seu interior.
A AlternativaA alternativa a comprar um saco cama é ... pedir um emprestado. Isso permite-lhe adquirir uma melhor noção do funcionamento prático do saco cama e de compará-lo com o dos seus companheiros de viagem. Depois de utilizar um pela primeira vez em condições reais, durante vários dias, ficará com uma boa ideia do que necessita. Assim, saberá melhor qual o tipo de saco cama que mais lhe convêm e a sua escolha será a mais adequada.Outra possibilidade, mais fraca, é a de usar dois sacos cama de Verão, um metido dentro do outro. Se viajar para paragens onde o frio nocturno seja moderado esta opção serve.Em qualquer caso, calce sempre umas meias espessas e, se ainda tiver frio nos pés, enfie a extremidade do saco cama dentro da mochila.

Thursday, December 19, 1996

Viagem ao Ladakh, India

O vôo de Nova Delhi para Leh sobrevoa os Himalaias indianos e oferece-nos durante todo o tempo um panorama espectacular de montanhas nevadas e de glaciares. Fiz a viagem com a testa pressionada contra a vigia encantado com as paisagens.
O Ladakh está situado no planalto tibetano, no extremo noroeste da India. É uma zona muito remota pois os acessos através das altas montanhas são difíceis e a estrada está interrompida pela neve durante pelo menos seis meses no ano.
Leh, circundada por grandes montanhas, é a antiga capital do reino do Ladakh, também conhecido por Pequeno Tibet.
A sua rua central é longa e muito cosmopolita, e o bazar é um importante ponto de encontro e de troca de géneros. Aí prolifera o pequeno comércio que me dá a conhecer um pouco do estilo de vida dos ladakhis: o que comem e vestem, as alfaias e utensílios que utilizam, as suas produções artesanais e a sua arte.
Sendo um País budista, achei estranho que possua uma mesquita e um bairro muçulmano no centro da cidade. Informam-me que a presença da mesquita se deve ao casamento do rei do Ladakh com uma princesa de Kashmir (muçulmana) no séc XVII.
O palácio real, ainda propriedade dos monarcas, domina a cidade do alto de uma colina. Acima dele situa-se o mosteiro Tsemo (séc XV), engalanado com coloridas bandeiras de oração.
Vale a pena a longa caminhada até aqui para se apreciar o panorama da cidade rodeada de verdejantes campos agrícolas.
Leh situa-se no longo vale cavado pelo impetuoso rio Indo. As aldeias da região contam poucas famílias pois a terra cultivável é escassa, sendo a pastorícia um meio de subsistência importante. Seguindo o modelo tibetano, a actividade religiosa foi preponderante na vida deste povo e aí encontramos inúmeros mosteiros, quase todos em actividade. Viajar no Ladakh implica obrigatoriamente visitá-los pois é neles que está depositada uma profunda cultura ancestral.
Assisti ao festival anual do mosteiro de Stagna cujo propósito era o de dar graças pelas colheitas. Quando, de manhã, nos aproximávamos do mosteiro já se ouviam as enormes trompas telescópicas que ressoavam grave e possantemente pelas montanhas.
À semelhança das nossas procissões, esta festa reúne todos os aldeões da área numa ocasião em que podem participar na sua religião e auferir mérito religioso. É também um importante acontecimento social para o qual as pessoas vestem as suas melhores roupas e onde convivem despreocupada e alegremente. As cerimónias que mais agradam ao povo são as danças com máscaras acompanhadas de música de instrumentos de sopro e tambores. Em certas ocasiões, as pessoas também participavam na dança e era notório que se divertiam bastante.
Na planície sob o mosteiro, realizaram-se provas de tiro com arco tradicional. A maioria dos desportistas não estavam muito treinados, mas o que contava era o são convívio e a boa disposição que reinava entre eles e a assistência.
Por ser uma manifestação genuína da tradição deste povo, e não uma atracção turística, considero que esta foi uma experiência de uma enorme riqueza cultural.
Fiquei entusiasmado por o meu guia, Wangchuk, me ter informado que iríamos a uma festa de aniversário de um parente, nessa noite na sua aldeia a leste de Leh, a véspera de iniciarmos o percurso pedestre pelas montanhas. No Ladakh os aniversários festejam-se uma vez na vida de uma pessoa, normalmente alguns meses após o nascimento.
Não podíamos comparecer sem levar as katas e fomos ao bazar de Leh comprá-las. Manda a etiqueta nos países de cultura tibetana que os visitantes apresentem katas aos seus anfitriões. É um costume ancestral na região e um sinal de cortesia e de profundo respeito. As katas oferecem-se igualmente a quem parte por um período prolongado. Também são oferecidas às estátuas das divindades nos mosteiros ou são presas às rochas e a ramos de arbustos em locais elevados nas montanhas. A kata tem as dimensões de um cachecol e é de cor branca. Infelizmente já é difícil encontrá-las em seda ou em linho fino e tivemos de contentar-nos com as de poliester.
O povoado de Basgo situa-se num longo vale encravado entre montanhas que a estrada atravessa numa das extremidades. O mosteiro, semi-arruinado mas ainda activo, domina a região do alto de um elevado promontório. Um pouco mais acima notam-se ainda algumas muralhas da antiga fortaleza. As casas estão dispersas pelos campos de cultivo que apresentam, nesta época, algumas áreas cobertas de gelo compacto. As filas de choupos e de salgueiros, uma visão típica destas altas paragens, assinalam o curso de valas de irrigação.
Cruzámos dois homens que conduziam um enorme yak. Explicaram que viajavam há cinco dias através das montanhas e que tencionavam vender o animal numa destas aldeias. "Não vão ter muita sorte", explicou-me o guia, "o yak emagreceu com a viagem e os aldeãos sabem que ele não sobrevive a esta altitude".
O Wangchuk apontou para a casa onde se realizava a festa, situada em local preponderante numa encosta da montanha. Notava-se que pertencia a gente abastada pois tinha uma grande dimensão e três pisos. Enquanto caminhávamos ao longo do ribeiro fomos observando os grupos de convivas, aperaltados para a ocasião, que convergiam de vários carreiros, alguns montados em cavalos adornados com arreios reluzentes. As mulheres mais ricas usavam o toucado característico do Ladakh, o perak, que desce pelas costas e é incrustado com fiadas de turquesas. Consoante a posição da sua detentora, ele pode ter três, cinco, sete ou nove fiadas, estando estas últimas reservadas à alta nobreza e à família real.
Como a maioria das casas no Ladakh, esta também tinha os característicos amuletos com crâneos de cabra pendurados nas paredes exteriores.
Senti que penetrava no íntimo de uma civilização centenária, até culturalmente mais antiga do que a nossa.
Após os cumprimentos aos senhores da casa fomos convidados para uma sala onde seria servida uma refeição ligeira aos recém-chegados. O mobiliário resumia-se a coloridos tapetes no chão rodeando a divisão e a mesas baixas e oblongas. Das paredes pendiam algumas fotografias de familiares, algumas bastante antigas, de lamas venerados e de divindades budistas. Mal nos sentámos, de pernas cruzadas sobre os tapetes, servem-nos chá em taças de porcelana. Nas regiões de cultura tibetana, o chá é fervido longamente em água para obter-se um preparado muito concentrado a que se dilui manteiga de yak e sal dentro de uns cilindros de madeira próprios para o efeito. O resultado, idêntico a um caldo, é bastante agradável. Seguiu-se o chang, cerveja fermentada a partir de cevada, e arroz com pedaços de cabrito servidos também em taças com um suculento molho.
Depois conduziram-nos para o recinto da festa ao ar livre sob grandes toldos. Após saudações, sentámo-nos de pernas cruzadas no solo coberto de tapetes tibetanos, detrás de mesas baixas. Os homens e as mulheres sentavam-se em mesas separadas.
Os criados serviram-nos sutcha (chá salgado com manteiga de yak) e chang (cerveja caseira de cevada), seguindo-se chapatti, carne com batatas, depois dhal-bat (puré de lentilhas com arroz). Senti-me um pouco embaraçado quando constatei que não era capaz de comer o arroz com a mão, e tive de pedir uma colher.
A banda de músicos tocava incessantemente e, mais tarde, os convivas iniciaram a dança. Homens e mulheres em conjunto faziam uma fila por entre as mesas e avançavam com passos lentos e curtos ao ritmo do tambor. Exibiam uma expressão de distante e, de kata (écharpe cerimonial) nas mãos, produziam movimentos suaves e elegantes de acordo com o compasso da música.
À uma hora da manhã o frio já era intenso e passou-se ao salão onde a ceia nos foi servida. A música e a dança não esmoreciam, o chang continuava a correr com abundância e as crianças dormiam no colo das mães.
O anfitrião, dos poucos que falava algum inglês, contou-me que tinha terras e que era lavrador. O seu pai tinha sido um grande mercador e lembrava-se de como ele partia com a sua caravana de yaks e de cavalos para o Changtang.
Nessa época os chineses ainda não ocupavam o Tibet e o comércio era livre. O pai ia sempre armado e combinava viajar com outros mercadores para fazerem frente aos salteadores que na época infestavam os caminhos.
A festa durou toda a noite. De manhã, todos nos dirigimos para a casa de uns familiares, do outro lado do vale, para tomarmos o pequeno almoço. Serviram-nos kolak (tsampa misturada com sutcha), chá e mais chang. No final, insistiram comigo e com o Wangchuk para que os seguíssemos para a casa de outro aldeão pois... a festa prosseguia !
Declinámos com cortesia pois a nossa caminhada através das montanhas tinha mesmo de começar.
Mais tarde, deixaria este País com a memória empolgada de vivências únicas e com a nostalgia de não poder prolongar a minha estadia entre este povo que vive com alegria enfrentando as mais rudes intempéries. Despedi-me do Wangchuk no aeroporto. Pouco antes de partir envolvi-lhe o pescoço com uma kata e ele manifestou uma enorme surpresa que se traduziu em vergonha por não ter sido ele a lembrar-se.


Gonçalo Velez
Nov 96

Wednesday, August 23, 1995

Grande Raide no Toulnoustuc, Québec, Canadá

Foi numa tranquila madrugada de Agosto que partimos da aldeia de Sorel, situada entre Montréal e a cidade do Québec, rumo às longínquas terras do Grande Norte.
Pela frente tínhamos 750 km de estrada e de pistas florestais até ao local de embarque da expedição. Atrás de nós, seguiam a reboque três enormes canoas em que faríamos a descida dos 180 km do rio Toulnustouc. A aventura ia começar.
O percurso de estrada até Baie Comeau é muito agradável pois margina o vasto golfo de São Lourenço. Aqui desemboca o canal que dá acesso aos grandes lagos interiores do Canadá. A paisagem renova-se constantemente em enseadas com praias de areia ou arribas rochosas, aldeamentos palafíticos de pescadores, herdades de pequena dimensão e povoados costeiros onde se notam inúmeras casas de férias. Uma das grandes atracções deste golfo é a observação de baleias, golfinhos e focas que, com sorte, se avistam da estrada. Para o interior domina a imensa floresta de abetos, lárices e bétulas que cobre mais de metade da província do Québec e que constitui uma das suas principais fontes de rendimento: o Québec é o maior produtor de papel da América do norte. Atravessamos a reserva de índios montanheiros de raça Essipit, em Escoumins.
Em Baie Comeau penetramos nessa vastidão verdejante e ondulada de colinas suaves, atravessada por cursos de água e por lagos. Esta estrada secundária, conhecida por Highway 389 ou a Estrada do Norte ao Norte, atravessa o território de Manicouagan e é a única via terrestre que conduz à província do Labrador. Foi construída nos anos setenta quando se iniciaram os grandes projectos hidroeléctricos no norte do Québec.
Jantamos num restaurante para camionistas em Manic V, a maior barragem do Mundo, e desviamos, mais à frente, por uma pista florestal que nos conduziu à margem do lago Kawashapishkau.
Na escuridão da noite fomos encontrar os inúmeros bidões estanques e sacos que continham todo o nosso equipamento e provisões para os nove dias da expedição, e que haviam sido transportados por hidroavião nesse dia.
De manhã, e após arrastadas impiedosamente as longas canoas vermelhas pela areia e rochas da margem, chegava o ansiado momento do embarque. O Gérald comandava as operações com a sua incansável energia e avaliava as pessoas pela sua corpulência para as distribuir pelos assentos das pirogas. Éramos dezassete pessoas de origem canadiana, francesa, suíça e portuguesa.
O dia estava radioso quando começámos a deslizar suavemente a favor da corrente. Deixáramos para trás a única via de acesso à margem ao longo dos 180 km que a nossa expedição ia percorrer. Excepto os quatro monitores, mais ninguém tinha experiência de canoagem, mas cedo adquirimos a prática de pagaiar. Não tem qualquer segredo: sentamo-nos com uma das coxas encostada à borda da piroga, uma mão agarra o extremo da pagaia, a outra um pouco acima da pá, o tronco deve manter-se direito, e o movimento vai-se aperfeiçoando com a prática. É importante remar à mesma cadência do tripulante que vai à proa para que toda a equipa esteja coordenada e a piroga vogue com a melhor eficiência. Como medida de segurança, levávamos dois rádios de comunicação: um que atingia qualquer posto florestal na região, o outro que emite para qualquer ponto do globo via satélite.
O sentimento de penetrarmos numa Natureza majestosa e possante, praticamente virgem, embriagava-nos de misticismo e de reverência. Os europeus já não possuem territórios selvagens com uma fracção da dimensão deste. Espécies como o urso, o lince e o lobo são protegidas e consideradas em risco de extinção entre nós. No grande norte do Québec elas vivem imperturbáveis e ninguém se questiona sobre a necessidade da conservação.
Esta primeira etapa foi a mais movimentada e cansativa, mas também emocionante e muito divertida: iríamos atravessar seis pequenos lagos em níveis diferentes ligados por rápidos. Nessas secções de rápidos, tínhamos de transportar o material para diante e conduzir as embarcações pela margem até onde se tornaria a embarcar - nada melhor para cultivar o espírito de companheirismo e de entreajuda. Houve alguns curtos troços com pequenas quedas de água em que tivemos de arrastar as pirogas sobre as rochas da margem, usando o nosso melhor equilíbrio e prudência para evitar escorregarmos. A meio da tarde desembarcámos numa esplêndida praia. Montado o acampamento, cada qual dedica-se ao que melhor lhe apraz. Uns agarraram nas canas de pesca e foram pescar para um braço de rio ao abrigo da corrente, outros muniram-se de serrotes e de machados e aplicaram-se a cortar lenha para a fogueira do jantar.

Fiquei surpreendido com a naturalidade e a rapidez com que os canadianos abatem bétulas e as transformam em pequenos cepos para a fogueira, ou em postes para suster os toldos. Senti-me deslocado na mentalidade que me governa e que apela à conservação - ainda não me tinha habituado à abundância. Havia quem lesse ou simplesmente contemplasse a extrema beleza e tranquilidade daquele ambiente. Os cinco suíços decidiram dar uma volta a pé pelas redondezas e fui com eles. O Martin, biólogo e ferrenho entusiasta da Natureza, insistia que tinha de ver um urso, um lince ou um alce, ... ou todos. Ele era um dos responsáveis pelo projecto de conservação do lince na Suíça e conhecia bem o lince da Malcata. Alguns dos seus amigos, sobretudo a Daniella, contestavam: "Queres ver um urso para quê ? Para apanhares o maior susto da tua vida ?!" Mais tarde, o Yves, um dos monitores de canoagem disse-me que todos os estrangeiros que vinham ao Québec traziam uma quase obsessão de ver um urso. Mas que não o recomendava pois, com um urso à vista, o único procedimento seguro é permanecer imóvel e berrar. "Não acredito que alguém com pouca experiência da floresta seja capaz de conter os nervos e ficar imóvel. Se desatas a correr, ele corre atrás de ti, e aí podes estar em maus lençóis. Podes tentar subir a uma árvore que eles também o fazem. Contudo, nesta zona só há ursos negros que são pequenos e pouco temíveis, excepto se tiverem crias."
No dia seguinte levantei-me cedo e fui até ao lago que descobríramos na véspera. Tinha ouvido o Martin dizer que iria para lá de madrugada. No caminho notei diversas árvores roídas pelos castores, algumas tombadas. Quando descia para a margem, no meio de vegetação densa, ouço um rugido a poucos metros de mim ! Estremeço e quedo-me imóvel. Passam vários longos segundos. Ouço novo rugido mas nada mexe em redor, só um esquilo saltita nuns ramos acima de mim. Hesito, e acabo por dizer alto: "Monsieur l’ours, attention que je porte un fusil" (senhor urso, atenção que tenho uma espingarda).
"Estamos aqui, vem até cá", gritava o Martin, o autor da brincadeira. Fui encontrá-lo muito sorridente sentado na margem com a Daniella e o Claude. Esfusiante, contava: "Chegámos aqui quando ainda era noite. Ao clarear vimos um grande vulto aproximar-se da água. Era um alce ! Vimos um alce ! Foi pena que ainda estava muito escuro para fotografar". Em seu redor espalhavam-se manuais de aves e de mamíferos, binóculo, máquina fotográfica, rolos e objectivas. "Ouviste um lobo a uivar durante a noite ?", pergunta-me. "Não, estava a dormir. Tenho a certeza de que foi alguém para te assustar" respondi. "Não, não, era mesmo um lobo ! Eu conheço-os."
Nesse dia o rio desembocou no lago Deschène e tivemos o prazer de apreciar um largo panorama dos montes em redor. As canoas vogavam distanciadas umas das outras revelando a aplicação e a disciplina de cada tripulação. A brisa pelas costas criava pequenas vagas que nos auxiliavam. Mais uma vez o Martin tinha de fazer-se notado: a canoa mais atrasada tinha içado à proa um duplo tecto de tenda que insuflava com dificuldade. Ele e o Michel iriam revelar-se os mais preguiçosos remadores de todo o grupo. De quando em vez fazíamos pausas para descanso. As embarcações juntavam-se e as garrafas de sumo de laranja e os chocolates circulavam. Mais uma vez me surpreendeu constatar que os canadianos bebiam a água do lago com confiança, sem a tratarem. "Podes beber à vontade", dizia-me a Liz, esposa do Gérald. "Toda a gente bebe. E que poluição esperas tu encontrar aqui ?" Estávamos numa dessas pausas no meio do lago quando alguém detectou um alce a nadar. Embora longe, ficámos todos a observá-lo com enorme interesse até que ele subiu a margem e desapareceu no arvoredo.
Normalmente remávamos duas horas de manhã e outras duas à tarde. A corrente e a brisa a nosso favor permitia-nos avançar de 25 a 30 km por dia. As pirogas de oito metros eram desenhadas pelo Gérald que se gabava de não conhecer outras desta dimensão que fossem tão rápidas. Professor de educação física, desde há longos anos que era apaixonado pela canoagem, tendo sido atleta olímpico. "Uma vez organizámos uma expedição nos Territórios do Noroeste que durou 180 dias. Sabes o que são 180 dias ?!", perguntava-me com a sua voz enérgica. "Éramos cinco pirogas e tínhamos apoio exterior, mas passámos o inferno. Apanhámos tanto mau tempo e condições adversas que não quero voltar a repetir. L’enfer!". Hoje, com 59 anos conserva um porte atlético invejável e gaba-se das suas 28 maratonas já corridas. "Passo o Inverno a treinar corrida e ski de fundo e participo em duas ou três maratonas por ano. Quando era jovem havias de ver os meus bíceps, e os abdominais, parecia que tinha bananas na barriga", dizia-me com a sua típica ingenuidade.
Nas etapas seguintes o rio mantinha-se estreito e o contacto com a Natureza era muito acolhedor pois observávamos facilmente o que se passava nas duas margens. A presença dos castores era constante, não por que os víssemos com frequência, mas pelos inúmeros vestígios que encontrávamos: pequenos diques e árvores roídas. A região é muito rica em aves lacustres e terrestres entre as quais vimos esvoaçar inúmeros patos, gansos, mergulhões e águias pescadoras. Atravessámos mais lagos, alguns com ilhotas e rochedos no meio, e surpreendia-me constatar a imensidão impressionante destas massas de água que fluem lentamente do Labrador para o golfo de São Lourenço, autênticos reservatórios inesgotáveis. Por razões de conservação, tinha sido proibido pelo Governo, há uns vinte anos, o transporte de madeira nos rios. A madeira era cortada
e lançada à água. Depois vogava dezenas ou centenas de quilómetros ao sabor da corrente para sul onde seria pescada. Ainda hoje há centenas de cepos que vogam nestas águas e jazem nas margens, com as extremidades perfeitamente arredondadas."Esta medida foi muito contestada pois encareceu imenso o custo do transporte da madeira", dizia-me a Marie Helène, estudante em Montréal. "Mas as autoridades consideraram, e bem, que uma boa parte destes troncos ficavam presos em rochas submersas e entulhavam várias secções do rio, sobretudo os rápidos e os troços em que o leito estreita. O peixe começou a ter enorme dificuldade em subir os rios".
Passámos por raras cabanas de caçadores, construídas de madeira na margem, algumas em locais perfeitamente idílicos. Muitas tinham instalado o característico reboque para o barco, que servia somente para o içar em seco alguns metros sobre uma rampa de madeira. É óbvio que os seus proprietários tinham de aqui chegar de hidroavião, um meio de transporte indispensável na região. A nossa agradável odisseia prosseguia com a descoberta de novas paisagens e recantos de rio encantadores. O que mais me fascinava era o sentimento genuíno de sermos as únicas pessoas muitas milhas em redor. Não podia deixar de sentir um enorme júbilo por beneficiar de tamanho privilégio.
A excepção foi o velhote que encontrámos no quinto dia à pesca num bote, defronte da sua cabana. Ficámos um pouco desiludidos pois ignorou-nos por completo. Imaginei que estaria indignado com a sorte por lhe aparecer este grupo a perturbar a santidade da sua solidão.
A certa altura passámos uma zona de majestosas falésias rochosas que mergulhavam a pique nas águas límpidas. O arvoredo crescia da mais pequena fenda ou falha na rocha, oferecendo uma fascinante combinação de cor e um interessante contraste de consistências. A imponência destes vultos impunha respeito. As canoas deslizavam sob as paredes maciças e era difícil concentrar-nos a remar perante tamanha imponência.
Nessa manhã fizemos uma pausa junto de umas cascatas. Não havia possibilidade de desembarcarmos e ficámos a admirá-las a jorrar com ruído para o rio. Acima da margem havia extensões de musgo verde e vermelho que era muito espesso e tinha a altura de relva.
O sétimo dia de expedição foi dedicado ao repouso numa belíssima praia envolvida pela floresta. Aliás, todos os acampamentos seriam sempre em praias, sendo difícil eleger a mais bonita. Após um pequeno almoço tardio, metade do grupo partiu em excursão. Uns levavam canas de pesca pois o Gérald disse-nos que nas proximidades havia uns rápidos onde se pescava excelente truta no meio do arvoredo. Continuei com os suíços, os únicos ávidos caminheiros do grupo, para fazermos a ascensão de um monte. Sentíamo-nos uns autênticos exploradores a desbravar o mato virgem que nos dificultava a passagem. Chegados ao cimo, trepámos os últimos rochedos e sentámo-nos a apreciar a vasta paisagem em redor, com a roupa coberta de inúmeros pedaços vegetais. O esplêndido panorama deixava-nos pasmados com a imensidão de floresta a perder de vista. Distinguíamos alguns lagos em depressões e o curso do rio Toulnoustuc serpenteando placidamente.
O Martin era incapaz de conter a sua excitação e não parava de exclamar a sua surpresa pela beleza daquela magnífica Natureza. A Thèrese protestava: "Ó Martin, tu que és tão naturalista, fazes mais barulho do que todos nós juntos. Queres observar animais selvagens mas espanta-los à distância !"

O Martin conseguiu convencer a custo o Michel para continuarem o passeio. Regressámos ao acampamento para tomarmos um bom banho e nos estendermos na praia.
A meio da tarde aparece o Laurent, um funcionário público quarentão que trabalha na cidade de Québec. Tinha ido passear sozinho e parecia perturbado. "Fui dar uma volta ali por cima e apareceu-me um animal. Era grande e escuro. Não consegui perceber o que era através do arvoredo, mas era muito grande", e descrevia com os braços a dimensão do animal. "Era um elefante negro ?", ironizou alguém. "Viste um rochedo coberto de musgo escuro", disse o Christophe. "Não, não, ele mexeu ! Tive pouco tempo para o observar por que só quis escapulir-me".
Ao fim da tarde, já o jantar estava a ser cozinhado, aparece o Martin com uma expressão orgulhosa e triunfal. "Vejam o que encontrei", e mostrava em cada mão fezes enroladas em folhas. Ouviu-se uma gargalhada geral.
"Esta é de lince que eu conheço bem, e esta... tem de ser de urso!"
Durante toda a expedição os jantares seriam sempre dos períodos mais calorosos do dia. Todos se reuniam descontraidamente em redor das duas fogueiras vigiando o jantar ou a roupa a secar. Conversava-se animadamente sobre as peripécias do dia enquanto o pescado grelhava sobre as brasas. Às vezes, os monitores desencantavam umas garrafas de forte cerveja canadiana que passavam de mão em mão. O fogo unia as pessoas e dava-lhes uma maior predisposição para o convívio, ou induzia à melancolia meditando-se fixamente sobre as brasas. A noite ia caíndo e com ela a mais absoluta tranquilidade.
O importante era que ninguém tinha vivido indiferente em qualquer momento da expedição. A imersão nesta fantástica Natureza tínha-nos sempre inspirado.
Embora não tivéssemos visto um urso ou um lince, todos partimos com a nostalgia de termos vivido momentos memoráveis naqueles imensos espaços de liberdade.
Este é o relato da minha participação em Agosto de 95 na expedição no rio Toulnustouc. A viagem de
Rotas do Vento Grande Raide no Québec oferece exactamente a mesma paisagem e o mesmo tipo de sensações.

Gonçalo Velez

Nota: Veja na edição de Maio 96 da revista Volta ao Mundo as fotografias que acompanham este artigo.

PS: Visite o site
Rotas do Vento onde encontrará o programa Grande Raide no Québec, um raid de canoa idêntico ao descrito acima.

Monday, April 25, 1994

Actividades Gonçalo Velez

















Gonçalo Velez
Address: R Domingos Sequeira 27 6-A
1350-119 Lisboa, Portugal,
tel 213 950 035
, fax 213 950 037,
email
 
Climbing Curriculum

1983
- Rock climbing initiation, 

1985
- Mont Blanc du Tacul (4248m), France, normal route,
- Aiguille du Midi (3800m), France, Cosmiques ridge,
- Mont Blanc (4810m), France, traverse Goûter to Midi, 

1986
- Les Courtes (3856m), France, SE face,
- Aiguille du Midi (3800m), France, Frendo spur,

1987
- Ski mountaineering to Vallot hut (4362m), France,

- Zinalrothorn (4221m), Switzerland, SW face,
- Aig Bionnassay (4052m), France, NW face,
- Mont Blanc (4810m), France, through Aig Bionnassay,


1988
- Ski touring Chamonix-Zermatt, France-Switzerland, by Ottema glacier,
- Mont Blanc (4810m), Italy-France, Aiguilles Grises route, 

 













1989
- Ski touring on the 4000ers of Zermatt with ascent of Breithorn (4159m), Pollux (4092m), Castor (4228m), Signalkuppe (4554m), Zumsteinspitze (4452m), Parrotspitze (4432m) and Dufourspitze (4634m),
- Aig d’Argentière (3900m), France, north face,
- Aiguille du Chardonnet (3824m), France, Migot spur,
- Aiguille sans Nom (3982m), France, from Charpoua, attempt to 3900m before getting lost,
- Mont Blanc (4810m), Italy-France, Jaccoux-Domenech spur, 

1990
- Mont Blanc (4810m)
on skis, France, by Grands Montets,
- Les Trois Cols on skis, Mont Blanc massif,
- Pik Petrovski (4800m) (p), Tadjikistan,
- Pik Vorobyovski (5500m), climbed to 5100m, Tadjikistan,
- Pik of Four (6229m) (p), Tadjikistan,
- Pik Korjenyevska (7104m) (p), Tadjikistan (first Portuguese 7000'er),


 














1991
- Annapurna I (8091m) (p), Nepal, Oct 23, Sep/Oct, south face, Bonington route (first Portuguese 8000'er),

1995
- Kilimanjaro (5896m), Tanzania, Dec/Jan, Machame route, 

1997
- Cho Oyu (820
2m), Tibet, Sep/Oct, normal route, 

1999
- Mount Toubkal (4167m), Morocco, Imlil-Imlil in 12h (2400m up),
- Shishapangma (8012m), Tibet, Sep/Oct, south face,
Slovenian route, reached 6700m before snow fell consecutively for 72h, High Mountain Info May 00,
 
2000
- Lhotse (8516m), Nepal, SW face, Apr/May, reached the end of the couloir, 8400m?, solo and on 40cm deep snow before a storm induced me to descend,
my short report at Everest news.com,
 





















2001
- Kangchenjunga (8586m) (p), Nepal, May 15, SW face, W ridge, Apr/May,
my report with photos,
- Mount M'Goun (4068m), Morocco, Oct.

2002
- Island Peak (6189), Nepal, normal route, Apr, as acclimatization for:
- Makalu (8470m) (p), Nepal, NW ridge through Makalu La, May 16, Apr/May,
my report at Everest news.com, Alpine Club newsletter Jan 03.

2007
-
Manaslu (8163m), Nepal, Sep 2007, reached 7200m before the weather turned nasty with too much snow and wind,
- XCeará, Brasil, paragliding cross country competition, one 300 km flight on 15.11.07.
Note: All climbs oxygenless.
(p) first Portuguese climb.



 
















Other Data
Profession: Economist, by Universidade Católica Portuguesa (1983),
Occupation: Founder and managing director of Rotas do Vento, the leading Portuguese adventure and trekking travel agency, frequent guiding the agency’s groups, reconnaissance of practically all the itineraries sold by the agency in Portugal and abroad (http://www.rotasdovento.com/),
Other activities: competition and cross country paragliding, cycling, swimming, jogging,
Other interests: Art, literature, music, photography,
Other skills: coastal navigation master certificate and coastal sailing experience, jungle survival course (Malaysia),
Affiliation: ADA Desnível (Portugal), AVLS (Portugal), Clube Vertical (Portugal).
Languages: fluent in Portuguese, French and English, fair command of Spanish.